Sunday, January 6, 2013

[Parte 1] Primórdios do pensamento neurocientífico moderno - Da Frenologia à Teoria do Campo Agregado



Hoje em dia é comum ouvir falar em jornais, revistas e até mesmo em rádios sobre descobertas feitas pela complexa ciência do cérebro. Que vem "trazendo" os “porquês” de agirmos de determinadas formas em nosso cotidiano.  Algumas destas materias beiram ao sensacionalismo científico enquanto outras são mais informativas e menos tendenciosas. Geralmente o lide destas contém títulos como “Decisão de enganar alguém vem de área específica do cérebro”, “Pesquisa liga área do cérebro à sensação de apego” ou “Cientistas descobrem região do cérebro responsável pela obesidade”.

Tais matérias sempre ligam a descoberta à uma ou mais regiões cerebrais que estariam envolvidas em um ou mais comportamentos observáveis. É necessário tomar cuidado com essas descobertas, principalmente com notícias de mídias sem credencias científicas fortes. A mediocridade no ramo neurocientífico tem se tornado o lucro de muitos

É necessário questionar os métodos e validades científicas destas descobertas, porém quando algumas se demonstram críveis há de se dar o valor e crédito ao avanço que é permitido alcançar com elas, tanto na medicina quanto na biotecnologia. Vide as interfaces cérebro computador. Um exímio exemplo deste tipo de pesquisa é o caso do neurocientista brasileiro Dr. Miguel Nicolelis, pesquisador na Duke University, para maiores informações conheçam um pouco mais sobre seu projeto Walk Again.

Este pensamento de que todo e qualquer fenômeno humano tem um substrato neurofisiológico é dominante no atual cenário das neurociências. Entretanto essa ideia é, vamos dizer, recente em termos de desenvolvimento. Neste primeiro post irei abordar um pouco sobre o inicio das primeiras ideias acerca da localização do comportamento na fisiologia neural. No segundo post irei dar a continuação da evolução destas ideias.


NO PRINCÍPIO FEZ-SE A FRENOLOGIA

Os primórdios desta ideia surgem no final do século XVIII com o médico e neuroanatomista alemão Franz Joseph Gall, sim isto mesmo, por mais estranho que possa parecer o inventor da Frenologia também contribuiu para o entendimento atual das atividades cerebrais. Gall, sendo um dos primeiros a tentar relacionar a biologia do organismo ao seu comportamento, postulou que todo comportamento emanava do cérebro e que este poderia ser dividido em 35 regiões que seriam substratos responsáveis pelo agir dos organismos. Ele defendia que cada centro responsável por uma função mental cresceria com seu uso, consequentemente expandindo a região óssea que o cobrisse. 

Desta forma, ele sugere que a análise das capacidades mentais poderiam ser realizadas através da mensuração do tamanho do crânio (crâniometria), teoria nomeada de Frenologia. Vale ressaltar que a Frenologia por apresentar um caráter reducionista da noção de humano vigente na época, causou incômodo por parte de entidades religiosas, cujas quais viam a essência do humano na alma e não no corpo. Além de ter sido utilizada para fomentar a desigualdade social e servir de justificativa a teorias de inferioridade racial.


Figura 1-2 A esquerda Franz Joseph Gall, neuroanatomista alemão teorizador da Frenologia, ideia que propunha a mensuração do crânio como forma de medir as capacidades cerebrais de um individuo. A direita um esquema da divisão feita por Gall das regiões cerebrais responsáveis por diversas funções cerebrais, a nomeclatura destas era por vezes muito estranha, comportamentos como o casar-se (matrimônio), veneração, benevolência entre outros eram delimitados a regiões salientes do crânio.


TEORIA DO CAMPO AGREGADO

A polêmica teoria da Frenologia levantou discussões e críticas pelos cientistas e religiosos da época, até que em 1823 o fisiologista francês, Pierre Flourens, a colocou sob prova. Em seus experimentos no intuito de averiguar os esperados impactos causados no comportamento de suas cobaias, retirando delas as regiões anatômicas descritas no mapeamento de funções cerebrais de Gall, Flourens, concluiu que o cérebro não possuía regiões específicas para cada função. Com base em seus resultados ele afirmou que os hemisférios do cérebro eram capazes de realizar toda e qualquer função mental, desta forma, danos em um dos hemisférios afetariam todas as funções.

Por sua vez, essa ideia ficou conhecida como teoria do Campo Agregado, teoria cuja qual vingaria por muitos anos no pensamento neurocientífico da época até a chegada do Conexionismo Celular de Paul Broca e Carl Wernicke.


Figura 3 Marie Jean Pierre Flourens, fisiologista francês do século XIX. Suas pesquisas feitas com a ablação (remoção) de regiões do cérebro de animais, o levou a formular a teoria do Campo Agregado onde não haveriam centros específicos e um hemisfério poderia realizar qualquer função cerebral.

Estas foram as primeiras ideias acerca da relação entre comportamento e o cérebro, apesar de soarem rústicas, elas foram as primeiras tentativas de se formular teorias sobre as bases fisiológicas do comportamento. Portanto, sendo essenciais para o desenvolvimento de discussões críticas acerca do assunto, além de fomentar a exploração destas em laboratório. Na parte 2 continuarei a discutir a evolução deste pensamento.

Nota do Autor: Meu objetivo neste conjunto de posts é descrever a história das primeiras ideias sobre a relação cérebro-comportamento, ou seja, vou abordar a palavra comportamento aqui na ideia existente naquela época (respostas fisiológicas observaveis como movimentos musculares até representações mentalistas de ações como iniciativa, aprovação, esperança etc...) e não na noção behaviorista radical de Skinner. Observações, comentários e discussões acerca da definição de Skinner sobre o comportamento e, as relações entre este e sua fisiologia serão discutidos em posts futuros dedicados somente a essa discussão.


BIBLIOGRAFIA


Kandel ER, Schwartz JH, Jessel TM. A Neurobiologia do Comportamento - Princípios da Neurociência - 4ª edição. Editora Manole; 2003. 

AGRADECIMENTOS

O autor dedica esse primeiro post em agradecimento aos amigos que apoiaram a iniciativa e em especial ao senhor, recém conhecido, Daniel F. Gontijo pelo incentivo em perder o medo de escrever sobre Neurociências em um blog, aqui recomendo o site dele o Montando o Quebra-Cabeça, que também dialoga sobre questões pertinentes a AC e as Neurociências.

9 comments:

  1. Com prazer comento em seu blog. Espero que seja o início de uma jornada, e que você sempre comece um texto sem saber como ele irá terminar.
    Um prazer vê-lo produzindo.
    Forte abraço!

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    1. Grande Alexandre!
      Obrigado pelo apoio meu caro!
      Forte Abraço!

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  2. Marcelão, parabéns!! Rapaz, ficou tudo muito bacana! Gostei da estrutura do blog, da logo... O texto achei que foi uma ótima escolha. Uma abordagem histórica é sempre a melhor introdução!

    Agora é só manter a escrita, amigão!!
    Um seguidor você pode ter certeza que já tem!! rs

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    1. Grande Filipe!
      Obrigado pelo apoio cara!
      Manterei a escrita e espero vê-lo por aqui sempre!

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  3. Ansioso pelas próximas partes!
    Abraço!

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    1. Opa!
      Fico feliz que tenha gostado do post Gabriel. Em breve estarei postando a segunda parte.
      :D

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    2. Olá, Marcelo! Muito bom blog, post e projeto, também tenho interesse por estas áreas, e espero curtir bastante seus posts, no que eu poder colaborar também estarei a disposição!

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    3. Opa Gehazi!
      Muito obrigado pelo apoio e pelos elogios.
      Óh, sinta-se a vontade para dar dicas, críticas e sugestões de post!
      No mais, espero que apareça por aqui sempre :D

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  4. Grande Marcelo! Fico contente por eu ter sido fonte de incentivo de um comportamento que tanto valorizo: divulgar e discutir ideias! Espero que ele prevaleça e que você cresça muito por aqui! Também gostei do ponto pelo qual você começou sua caminhada, e em breve vou voltar para ler mais e comentar, ok?

    Valeu! Um abraço!

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